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Ferramentas

Hoje meu parceiro da cozinha voltou para casa. Depois de 11 anos de uso intensivo, ele estava mostrando sinais de degradação, enviamos para uma empresa credenciada. Passou mais de um mês por lá, foi inteiro desmontado, muitos itens não estéticos foram substituídos.

Neste meio tempo, me deixaram com um genérico qualquer emprestado. Ajudou mais do que deveria.

Por um lado ajudou porque não fiquei sem poder cozinhar. Mas ajudou mais ainda por lembrar que eu não tenho um fogão, tenho um instrumento de precisão.

Qual o primeiro item preparado após o retorno? Fácil. Um miojo. Porque o intermediário emprestado me tirou o gosto de cozinhar num nível tão absurdo que deixei os ingredientes de tudo acabarem. Parece um tipo de pirracinha, e provavelmente é. Com o passar dos anos me acostumei e me apeguei às minhas ferramentas da cozinha, recentemente me desfiz de metade delas, estou ainda tentando me acostumar com tudo mais simples, mas numa boa, o fogão não é algo que me vejo abrindo mão.

Hora de ir para o mercado.

Capilaridade

Hoje senti desprezo por um método. Digo, eu sei que a coisa é toda cheia de boa intenção, mas no país de onde venho, conhecemos isso como pavimento.

É um formatinho de vídeos de tutorial. O estilo de narrativa de tamo junto, “então agora a gente passa a coisa por esse treco, ok pessoal, e depois a gente mistura com aquela outra bagaça”. Se passando por especialista em algo sem importância, no final das contas resolvido de forma óbvia, quase na base do improviso. Mas tem um floreio enorme na hora de ficar falando e falando e fazendo juntinhos.

Mas mesmo essa boçalidade por vezes tem valor, quando algum conceito bacana no final das contas foi passado.

E hoje aprendi por nome algo que só sabia superficialmente como funciona. E saber o termo correto permitiu pesquisar mais.

No final das contas, aquele vídeo em si foi um desperdício de tempo, mas por outro lado, garimpar informação é isso aí. Raramente é fácil. Difícil encontrar os meios termos onde não seja algo muito raso, quando não incorreto. Também difícil fugir dos grandes compêndios lotados de informação extremamente densa feita para potencialmente te transformar no maior especialista do mundo naquele assunto. Ou ao menos alguém bem treinado naquela visão sobre o assunto abordada pelo autor daquela fonte em específico.

Ao menos possibilitou a pesquisa. Obrigado, carinha do vídeo horrível.

O problema da falta de foco

(oh deus, isso vai soar tão pretensioso…)

Estava há pouco curtindo no sofá, acabamos de almoçar, estávamos degustando e analisando prós e contras de duas tortinhas doces, quando começou a passar um reality show relacionado a comida na TV.
Aquilo é objetivamente uma das razões pela qual toda a equipe que faz parte da produção e distribuição desse programa deveria passar o resto da vida comendo pão seco com água. Ou porque merecem ser castigados, ou porque a falta de paladar e/ou julgamento é tão prejudicada que no final das contas não vai fazer muita diferença.

Pegaram um apresentador de outros programas. Um deles é um no qual ele faz bolos bonitos. Cake boss. Muito bonitos, de fato, extravagantes, mas tenho certeza com toda a fibra do meu senso fajuto de julgamento, que são todos uma merda. Para esculturas de bolo bonito se sustentarem, o sabor pode acabar sendo sacrificado. Para poder empilhar 5, 6 bolos com uma camada de glacê usada como cola, o bolo tem que ser mais seco e firme. Seco. E firme. Para coroar, a camada exterior de pasta americana usada para modelar tem que sobreviver muito tempo rígida fora da geladeira. Isso significa muita gordura hidrogenada, mascarada por doses insalubres de açúcar.
Mas o foco do programa, afinal, são os bolos bonitos. Ok, é o que prometem, e de fato cumprem. O que começa a soar estranho é quando este mesmo fulano ganha um segundo programa,
Ele fica cozinhando alguma coisa qualquer, baseado em história de família e carregado de depoimentos próprios durante o cozimento, e no final aparecem seus irmãos (os mesmos que trabalham na confeitaria) para comer. Ao redor de mesa enfeitada, com garrafas de vinho, quase sempre de pé porque, afinal, é algo informal e familiar. Não mordo.
As texturas parecem não só erradas, mas inadequadas. Um exercício de imaginação, tentar visualizar aquela proposta em minha presença, me causa um desânimo tão grande, talvez mais porque havia uma chance de cumprir a proposta deste programa tão eficientemente quanto no dos bolos. Seria daora.
Mas, assim como dito por um músico certa vez, “a tortura nunca para”. Algo assim.
Este mesmo indivíduo ganhou mais um programa. Desta vez, com toda pretensão permitida pelas normas de conduta neste tipo de programa, ele tem a missão de analisar algum restaurante que está passando por dificuldades (oh, o drama), e dar seus pitacos.
O nível de caradepauzisse é novo pra mim. Toda vez que é colocado à prova, se utiliza de algum exemplo meio da própria família meio da sua confeitaria. Aquela mesma.
Daí não só analisa os erros comerciais, mas faz uma análise “profunda e objetiva” sobre os sabores do whatever que a casa esteja vendendo. Sim, esse cara está julgando sabores. Porque afinal de contas, ele tem cara de italiano clichê de filmes de máfia e séries engraçadinhas, logo é um italiano autêntico, e se tem uma coisa que todos estamos carecas de saber é que italianos são absurdamente obcecados e… !
Catzo, no final vem uma solução, que não vou me dar ao desprazer de narrar.
Este, se me perguntarem, é o ponto mais baixo que se pode atingir neste segmento de programação.